Ame

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domingo, 26 de maio de 2013

Não quero deixar minhas pétalas pelo chão


Sou uma coisa muito indefesa. Já senti frio nas noites de brisa e não tive o que me aquecer. Já senti medo de situações perversas e não tive a quem recorrer. Já deixei que me protegessem, mas me dei mal, tacaram-me no chão esquecendo-me ao relento. Sou bem fraca, mas eu sei me desviar e correr dos que querem roubar minhas pétalas. Sou mulher. Sou flor. Sou frágil. Sou inocente, mas desconfiada.
Vejo em muitas mãos, pétalas alheias. Vidas vividas pela metade, amores com limites e paixões com razões. Vivo em um lugar onde se permitir é não permitir. Avisto pessoas passando de jardim em jardim e colhendo uma pétala de cada flor, como se algum dia a junção de todas elas fosse dar um inteira.
Olho pra mim e vejo minhas pétalas. Algumas delas ficaram pra trás, umas ao chão, umas em solas de sapatos e outras devem estar voando por ai. Porém, as que sobraram, estão firmes e bonitas. Estou cuidando delas pra não serem mais arrancadas. Não quero mais dar pétalas de mim a ninguém. Quero dar uma flor inteira pra ser regada.
Um solitário busca loucamente sempre algo que o complete e às vezes essa procura é tão desesperadora que parece que tendo um pouquinho de cada, se têm tudo. Para uma flor, não há nada melhor do que ser protegida e cuidada por alguém que queira estar inteiramente ali, e para quem protege, não há nada melhor do que saber que sua flor está completa e que ali não são apenas pedaços. Por isso, cuide de um jardim, ou senão só terás pétalas aos seus pés. 

sábado, 25 de maio de 2013

Um mundo sem amigos



               Ela acordou no silêncio. Ficou um tempo sem emitir som para ver se poderia escutar alguma respiração alheia, mas foi em vão, não havia ninguém. Levantou-se e ligou o som, o seu companheiro vazio, para tentar quebrar um pouco daquele ambiente inóspito. Arrumou-se pra mais uma longa jornada e saiu mundo a fora como se fosse corajosa. Percebeu que no ônibus, atrás dos seus fones de ouvido, ela não era ninguém. Ninguém a notou, ninguém se quer esbarrou nela.
Chegando à faculdade sem um “Bom dia” ou um “Tudo bem?”, sentou-se no primeiro lugar que viu, não ficava muito tempo em pé pois tinha medo que alguém percebesse sua presença. Professores iam e vinham, mas ninguém a olhava nos olhos, parecia que ela nem ali estava. O almoço chegou e mais uma vez fez tudo com muita pressa pra ninguém notar que ela almoça sozinha por não haver companhia. Sem muita demora, partiu para o trabalho, lugar onde sabia que falaria suas primeiras palavras do dia.
O tempo passava muito devagar enquanto ela ia atendendo pessoas com duvidas. Alunos perguntavam sobre as duvidas e ela respondia sobre as duvidas, nada mais. Sem conversas paralelas ou transversais. Por vezes desviava seus olhos e podia avistar risos e olhares felizes entre conversas dos seus colegas de trabalhos. Invejava os algumas vezes.
Acabado o expediente, voltou para o silencio do seu lar. Começou a conversar com o espelho, como de costume, a conversa que gostaria de ter com aquele menino bonito. Ela riu e desviou o olhar pra não encara-lo muito, mas mais uma vez ele não a respondeu. Ligou o som e cantou alto musica que gostaria de um dia cantar para alguma pessoa. E quando a musica acabou,  parou de respirar pra mais uma vez tentar escutar ao menos a respiração de alguém, qualquer que seja esse alguém. Contudo, foi em vão.
Uma vida dessas, uma vida sem sal, uma vida sem graça, uma vida igual a dela, eu não desejaria nem pro meu pior inimigo. Mas que inimigo? No meu mundo não há. Vivo uma vida corrida e cheia. Muita coisa já me faltou, mas nunca me faltaram amigos. Sou agraciada e o meu mundo é deles, dos amigos. Acordo sozinha, escuto minhas musicas, falo com o espelho e canto musicas que gostaria de cantar um dia pra alguém. Todavia, falo com olhares, tenho conversas reais, recebo abraços, sorrio junto e sou cuidada por muitos. Como ela, fico em silencio por alguns segundos pra ver se escuto a respiração de alguém, não escuto, mas não é em vão. No silencio, ouço meus pensamentos e os meus pensamentos estão acompanhados, estão sorrindo e estão repletos de amigos.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Medrosa

Eu escondo um medo. Um medo tão bem escondido que por tempos escondi de mim mesma.
 Controlo meu tom de voz, controlo as palavras que penso, controlo as mensagens que mando e controlo os relacionamentos que tenho. Tenho medo ser muito e tenho medo de ser pouco. Tenho medo de exagerar e tenho medo de deixar faltar. Tenho medo de falar, mas acho que tenho mais medo de ignorar.Todos os medos que escondo e deixo transparecer, deságuam em um oceano que eu carrego, o medo de amar. 
Acho que tudo está sempre relacionado a quem eu sou. Não sei se posso ser eu por completo, pois não sei até que ponto o Meu Eu está disposto a ir. Esse Meu Eu é inconsequente, ele esqueceu o quanto já sofri. Por isso, as vezes deixo ele de lado e me forço a fazer coisas que diminuem a velocidade e a intensidade das coisas. E é exatamente nesse ponto onde mora toda a contradição. O Meu Eu quer ser muito, mas eu o faço ser pouco. O Meu Eu quer falar coisas demais, mas eu consigo segurar minhas mãos e minhas palavras.  Eu me boicoto e não sei até que ponto estou certa.