Ela acordou no silêncio. Ficou
um tempo sem emitir som para ver se poderia escutar alguma respiração alheia,
mas foi em vão, não havia ninguém. Levantou-se e ligou o som, o seu companheiro
vazio, para tentar quebrar um pouco daquele ambiente inóspito. Arrumou-se pra
mais uma longa jornada e saiu mundo a fora como se fosse corajosa. Percebeu que
no ônibus, atrás dos seus fones de ouvido, ela não era ninguém. Ninguém a
notou, ninguém se quer esbarrou nela.
Chegando à faculdade sem um “Bom dia” ou um
“Tudo bem?”, sentou-se no primeiro lugar que viu, não ficava muito
tempo em pé pois tinha medo que alguém percebesse sua presença. Professores iam e vinham, mas ninguém a olhava
nos olhos, parecia que ela nem ali estava. O almoço chegou e mais uma vez fez
tudo com muita pressa pra ninguém notar que ela almoça sozinha por não haver
companhia. Sem muita demora, partiu para o trabalho, lugar onde sabia que
falaria suas primeiras palavras do dia.
O tempo passava muito devagar enquanto ela ia
atendendo pessoas com duvidas. Alunos perguntavam sobre as duvidas e ela
respondia sobre as duvidas, nada mais. Sem conversas paralelas ou transversais.
Por vezes desviava seus olhos e podia avistar risos e olhares felizes entre
conversas dos seus colegas de trabalhos. Invejava os algumas vezes.
Acabado o expediente, voltou para o silencio do
seu lar. Começou a conversar com o espelho, como de costume, a conversa que
gostaria de ter com aquele menino bonito. Ela riu e desviou o olhar pra não
encara-lo muito, mas mais uma vez ele não a respondeu. Ligou o som e cantou
alto musica que gostaria de um dia cantar para alguma pessoa. E quando a musica acabou,
parou de respirar pra mais uma vez
tentar escutar ao menos a respiração de alguém, qualquer que seja esse alguém. Contudo, foi em vão.
Uma vida dessas, uma vida sem sal, uma vida sem
graça, uma vida igual a dela, eu não desejaria nem pro meu pior inimigo. Mas que
inimigo? No meu mundo não há. Vivo uma vida corrida e cheia. Muita coisa já me
faltou, mas nunca me faltaram amigos. Sou agraciada e o meu mundo é deles, dos
amigos. Acordo sozinha, escuto minhas musicas, falo com o espelho e canto
musicas que gostaria de cantar um dia pra alguém. Todavia, falo com olhares,
tenho conversas reais, recebo abraços, sorrio junto e sou cuidada por muitos. Como
ela, fico em silencio por alguns segundos pra ver se escuto a respiração de
alguém, não escuto, mas não é em vão. No silencio, ouço meus pensamentos e os
meus pensamentos estão acompanhados, estão sorrindo e estão repletos de amigos.