Sou uma coisa
muito indefesa. Já senti frio nas noites de brisa e não tive o que me aquecer. Já
senti medo de situações perversas e não tive a quem recorrer. Já deixei que me
protegessem, mas me dei mal, tacaram-me no chão esquecendo-me ao relento. Sou bem
fraca, mas eu sei me desviar e correr dos que querem roubar minhas pétalas. Sou
mulher. Sou flor. Sou frágil. Sou inocente, mas desconfiada.
Vejo em muitas
mãos, pétalas alheias. Vidas vividas pela metade, amores com limites e paixões
com razões. Vivo em um lugar onde se permitir é não permitir. Avisto pessoas
passando de jardim em jardim e colhendo uma pétala de cada flor, como se algum
dia a junção de todas elas fosse dar um inteira.
Olho pra mim e vejo minhas pétalas. Algumas delas ficaram pra trás, umas ao chão, umas em
solas de sapatos e outras devem estar voando por ai. Porém, as que sobraram, estão
firmes e bonitas. Estou cuidando delas pra não serem mais arrancadas. Não quero mais dar pétalas de mim a ninguém. Quero dar uma flor inteira pra ser regada.
Um solitário
busca loucamente sempre algo que o complete e às vezes essa procura é tão
desesperadora que parece que tendo um pouquinho de cada, se têm tudo. Para uma
flor, não há nada melhor do que ser protegida e cuidada por alguém que queira
estar inteiramente ali, e para quem protege, não há nada melhor do que saber
que sua flor está completa e que ali não são apenas pedaços. Por isso, cuide de
um jardim, ou senão só terás pétalas aos seus pés.
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